Sábado, 28 de maio de 2022

THEREZINHA DURÃO COSTA: Um Espírito Indomável

Publicado em 06/08/2021. http://jornalterral.com.br/t-GB8

Arquivo TERRAL

A professora e escritora Maria Lúcia Grossi Zunti (D) homenageia a amiga Therezinha Durão Costa, que faleceu no dia 26 de julho de 2021

Conheci Therezinha, aproximadamente, por volta de 1970, quando ela era a Diretora de uma Escola que se situava onde hoje está a Biblioteca Municipal, na praça 22 de Agosto. Mulher ativa, simpática, atenciosa e firme no seu trabalho foi o que me pareceu na época.

Pouco tempo depois, fiquei sabendo que Therezinha prestara o Vestibular e iria fazer um curso Superior. Eu residia fora da sede do Município, do outro lado da ponte. Porém, soube, tristemente, que um dia ela se sentara... e não conseguiu se levantar mais. As pernas, antes tão ativas, não queriam se movimentar de jeito nenhum. Minha nossa! – pensei.

No ano seguinte a este triste fato, mudei para uma casa no centro de Linhares e passei a visitar Therezinha sempre que possível. Assisti então, pela primeira vez, aquele espírito indomável travar uma batalha insana, incansável e feroz contra seu próprio corpo. Durante anos e anos procurou todos os médicos do país e até de fora do Brasil em busca de tratamento e chegou a passar por cirurgias para que suas pernas se movimentassem e ela voltasse a andar. Foi doloroso assistir essa luta que era para ela muito pior, terrível, dia a dia, mês a mês, ano a ano. Nada deu certo!

Até que aquele espírito valente precisou fazer um ato que detestava: – desistir! Ainda assim, começou a “andar” pelas ruas da cidade numa cadeira de rodas, se sacudindo o tempo todo pelos ressaltos dos paralelepípedos, tentando vencer o luto do seu coração. Depois, ela encontrou um trabalho para fazer: – participar da Fundação da Sociedade Pestalozzi de Linhares. Após os trâmites legais ela assumiu a presidência da Entidade e, com a ajuda de algumas amigas, começou a se movimentar no sentido de conseguir uma casa para o funcionamento dos trabalhos assistenciais da nova Instituição.

E lá vai Therezinha, pernas presas na cadeira, mas “andando” para todo o lado sobre rodas pedindo um boi aqui, sacos de café ali e mais bois acolá. Conhecia todo o mundo que podia ajudar e não se intimidava. Pela segunda vez assisti a luta daquele espírito indomável numa cadeira de rodas e incansável nos seus propósitos. Vendia todas as doações que pleiteava e com a renda conseguiu uma casa de seu agrado nas proximidades da rua da Conceição. Mas a casa tinha que ser reformada. E lá vai Therezinha atrás de mais verbas e, alternando com as amigas, na vigilância dos trabalhos dos pedreiros. E, depois, “correndo” em busca de mobiliário até que a casa se enchesse de crianças e adultos com necessidades especiais.

Mas era preciso sustentar os trabalhos da casa. E lá ia aquela cadeira de rodas sacolejante pelas ruas da cidade, com mais pedidos, organizando desfiles de modas num clube da cidade, bazares, enfim, tudo o que era necessário para manter os trabalhos da Pestalozzi. Anos depois, quando a Entidade conseguiu um terreno no bairro Colina e construiu-se uma casa própria com grande área de lazer, Therezinha entregou a presidência da Pestalozzi/Linhares a duas mulheres extraordinárias que fizeram a Instituição prosperar. Mas ela ia sempre lá. E eu também, pois, a essas alturas, éramos grandes amigas. Juntou-se a esta amizade uma terceira pessoa. Uma professora que trabalhava no Colégio Estadual na mesma época que eu.

Assim, quando eu fui convocada pelo presidente do Instituto Histórico e Geográfico do ES (IHGES), em Vitória, para criar uma Regional em Linhares, foi as duas que chamei. E lá vem Therezinha na sua cadeira de rodas, pronta para o que desse e viesse. Reunimos as três: Therezinha, a minha amiga do Estadual e eu junto a um banco na praça 22 de Agosto. Tê (Therezinha), novamente com seu espírito indomável, na cadeira de rodas, a professora e eu sentadas no tal banco da praça. Foi uma reunião memorável. Elas aderiram à ideia na hora. Sem pensar na luta que teríamos que travar até conseguirmos uma sede própria. Isso nem passou pelas nossas cabeças. Eram pés e cadeira de rodas no chão e prontas para o trabalho. Ali mesmo iniciaram-se os planos e ideias estratégicas para criar o que é hoje a SERLIGHES (Seccional Regional de Linhares do IHGES). Claro que muitas pessoas, depois, ajudaram. Mas não se está falando da história da Serlihges nem de outras pessoas aqui. Por isto não cito ninguém.

Tê trabalhou o quanto pode nos avanços e organização desta Entidade até termos uma sede própria e a enchêssemos de objetos sobre a memória histórica de Linhares, a maioria deles conseguidos por aquela mulher indomável que “andava” para todo lado sobre rodas e amava Linhares. Não faltava às reuniões onde planos e mais planos eram esboçados junto aos novos consócios que foram chegando. No começo “subia” as escadas na cadeira empurrada pelo seu marido ou um dos filhos até conseguirmos construir uma rampa.

Virou o milênio, (século XX para século XXI) e lá estava aquele espírito indomável pelas ruas da cidade e muitas vezes a encontrei dentro de Bancos ou na beira de passeios. Sempre alegre, sempre animada, sempre carinhosa, sempre ativa. Na maioria das vezes com os pés inchados por causa da doença. Ela mostrava e ainda fazia piadas com o fato. Sofreu outros problemas por estar sentada, com longo, longo tratamento em Vitória. Sofreu perdas familiares dolorosas também: esposo e mãe. Nos últimos tempos começou a ter problemas nos pulmões. Tinha que ter sempre perto da cadeira um respirador mecânico. Sua respiração ficava fraca e não conseguia falar. Mas pensam vocês que nas vezes que ia visitá-la estava com fisionomia abatida? Nunca! Nunca! Eu pelo menos nunca vi. Sempre sorridente e amiga tinha coisas novas para contar e eu ia embora quando sua respiração ficava mais difícil. Ela me ouvia um pouco, mas queria sempre falar também. E como falava! Eu saía de lá com o coração apertado, mas com vida nova e esperanças alimentadas por aquele espírito indomável.

Agora, o corpo foi embora. “A carne para nada serve”, diz Jesus Cristo, “o espírito é que vivifica” (João,7:63). Oh minha querida Tê, espero, fortemente, que não esteja agora lá em cima falando e falando demais com o Pai e Jesus Cristo. No mínimo, Eles vão se distrair de nós que ficamos aqui na terra e que precisamos tanto Deles.

Um abraço minha querida Tê, enviado com minha alma e meu espírito, Maria Lúcia Grossi Zunti

 

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